Projeto “O Nosso Mapa” – Balanço Final

O dia do evento do projeto “O Nosso Mapa” ficou marcado pela realização do mural de arte urbana, um símbolo e testemunho da coesão, espírito de equipa e imaginação de todos os participantes diretos do projeto, oferecendo uma perspectiva visual inovadora num sítio socialmente morto e dando resposta à necessidade real de criação de sinalética que identificasse a comunidade do Bairro da Ponte de Anta. Mais do que isso, este foi um dia que permitiu reforçar a mensagem, a visão e a missão de cuidar dos espaços de domínio público na comunidade do Bairro da Ponte de Anta, bem como a realização de feiras informais e solidárias, concertos, demonstrações de dança e de turntable.

Acredito, verdadeiramente, no valor das pequenas mudanças, no potencial que cada um tem para transformar o meio em que está inserido e, projetos destes, só reforçam a fé inabalável que tenho no ser humano e na sua capacidade construtiva e criativa. Senti, desde muito cedo, que as ações do grupo de trabalho estiveram perfeitamente alinhadas e que o trabalho dos últimos 3 meses deu resultado no dia da pintura do mural e colocação da sinalética – libertar os moradores da pressão da transformação é e continuará a ser uma das principais caraterísticas da metodologia que desenvolvi e para isso muito contribuiu o papel do diretor artístico do projeto. O JODE, meu companheiro de criação e co-fundador do Projeto Trinsheira, teve um papel fundamental, inexcedível, e provou uma vez mais o talento na criação e a vocação de líder servidor na execução de toda a obra de arte. Sem ele, sem a sua capacidade de trabalho, sem a sua visão, nada disto teria sido possível e a maneira como esteve neste projeto viverá para sempre em mim.

Ao longo de todo o dia, os moradores e todos os que visitaram a comunidade do Bairro da Ponte de Anta tiveram a oportunidade de experimentar ferramentas artísticas relacionadas com a arte urbana, aproximando a sua identidade e missão pessoal à missão do projeto “O Nosso Mapa”. Na área reservada aos espetáculos e concertos, os moradores do Bairro da Ponte de Anta puderam assistir a concertos e demonstrações ao vivo a cargo de Prototype Crew, Visão Oculta, Stage Zero e Diogo Malta. Senti que a reação inicial foi de surpresa, mas realizar espetáculos relacionados com o Hip-Hop em todas as suas vertentes (com bandas, turntable e breakdance, além do graffiti no mural) em contexto urbano, hoje em dia, causa isso mesmo. Ainda mais com artistas locais, sedentos de demonstrar a sua arte, devido à falta de sítios e eventos que promovam a sua música e a sua cidade.

No fundo, sinto que trouxemos um pouco da cultura de volta a tempos idos, na rua e da rua. Trouxemos um pouco da atitude que me diz muito e que esteve na raíz das bandas que tive, como Setor Urbano ou Shingaii, que esteve na raíz do Projeto Trinsheira e cujos valores de partilha, de olhar para as novas gerações, me acompanharam desde que me lembro de ser alguém. A todos os artistas que proporcionaram um dia (ainda mais) diferente à comunidade do Bairro da Ponte de Anta, o meu profundo obrigado, bem como à equipa da CercieEspinho, que esteve fantástica e incansável em todo o apoio logístico e operacional, ao nível dos recurso materiais mas, cima de tudo, dos humanos. Sem eles, este projeto nunca teria ganho a dimensão que ganhou. Ao Nuno Almeida, Presidente da Junta de Freguesia de Anta e Guetim e a toda a sua equipa, um obrigado sincero por trazerem ferramentas inovadoras ao nível da participação cívica e da cidadania, por todo o vosso esforço e pelo empenho e seriedade que depositaram neste projeto – a vossa atitude e disponibilidade foi um exemplo a seguir por todos.

Olhando para trás, sinto que, desde o início, traçamos um programa realista mas ambicioso. Criar um espaço onde a transformação seja possível mas, acima de tudo, credível, é algo que exige muita responsabilidade e muita capacidade de liderança a partir da retaguarda. Tentei estar à altura do desafio sabendo de antemão que sendo um projeto que partiu de um orçamento participativo, do seu diagnóstico, à votação e realização coletiva, a fasquia estava obrigatoriamente mais alta. À partida, muita coisa parecia impossível. Talvez o desafio mais crucial tenha sido o conseguir abrir uma página em branco na memória coletiva da comunidade do Bairro da Ponte de Anta. Apesar de ter incubado esta metodologia com bases fortes ao nível do conhecimento empírico e científico, de fazer este tipo de projetos em várias cidades e de me já me sentir relativamente confortável no desenho deste tipo de projetos, o facto de ser morador desta comunidade há exatamente 25 anos retirava-me, desde logo, o afastamento necessário para que a minha visão tivesse o alcance necessário. Pode parecer um cliché, mas a experiência diz-me que este é um aspeto fundamental. Foi um risco calculado, mas cujo resultado não podia prever.

A seu tempo e com o tempo, poderemos medir o impacto de tudo isto, inclusivamente com uma curta metragem que está já em preparação e que atravessa todo o processo, do diagnóstico ao seu resultado final. Se o objetivo primário era, acima de tudo, responder a uma necessidade real, sinto que o atingimos com a realização da sinalética – precisa e relevante a nível urbano, elaborada coletivamente. Sinto que este projeto e a sua memória descritiva ficarão como testemunho de um tempo e de uma época, filhos da vontade e do empenho de todos, e que a essência do que foi criado coletivamente permanecerá aqui, indelével e redentora, como aquele caminho que se abre para a madrugada de todos os sonhos. As reações têm sido muito positivas e tem sido especial poder ver o brilho nos olhos dos verdadeiros protagonistas do projeto “O Nosso Mapa”: os moradores! Aprendi muito com tudo isto, com todos vós. Aperfeiçoei o método e ganhei novas ferramentas, revisitei amizades antigas e ganhei outras tantas novas. Finalizo, honestamente, estas linhas e o projeto com a sensação de dever cumprido. Do fundo do meu coração, obrigado a todas e a todos!

Projeto “O Nosso Mapa” – Preparação Logística

A componente de preparação logística do projeto “O Nosso Mapa”, em colaboração com a Junta de Freguesia de Anta e Guetim e em conjunto com os artistas convidados para o dia do evento, teve como principal objetivo acertar todas as questões operacionais para a realização da iniciativa na comunidade do Bairro da Ponte de Anta. Nesta etapa, foi fundamental conseguir ligar todo o trabalho de ativação da comunidade e de experimentação artística com o micro-planeamento urbano definido, bem como preparar e organizar as performances artísticas que acompanhariam a pintura do mural e da sinalética de identificação do Bairro da Ponte de Anta, ao mesmo tempo que desenhei a estratégia de comunicação do evento.

Com a Junta de Freguesia de Anta e Guetim, foram trabalhados todos os aspetos de micro-planeamento urbano que resultaram na colocação do suporte físico onde se trabalharia no mural de graffiti, bem como na sinalética de identificação da comunidade do Bairro da Ponte de Anta. Nesta fase, foi fundamental o papel próximo e facilitador que assumiu todo o executivo, bem como a atenção que tiveram a todas as recomendações e requisitos técnicos que fui indicando e que fizeram parte do plano de gestão de projeto entregue assim que soube do resultado da votação pública que permitiu a realização da iniciativa. Com a CerciEspinho, entidade parceira no projeto, foi trabalhada toda a logística que asseguraria os aspetos técnicos fundamentais à realização dos concertos e à criação de uma área fechada junto ao mural. Como sempre, pude contar com a toda a disponibilidade e empenho da sua equipa técnica e direção, verdadeiramente incansáveis e 100% disponíveis, assumindo até trabalho e algumas responsabilidades que não estavam definidas à partida para a iniciativa.

Com a plataforma já colocada à entrada da comunidade do Bairro da Ponte de Anta, foi altura de pintar as bases da pintura e de realizar as últimas sessões de experimentação artística com os moradores. Foram, também, ultimados todos os pormenores relativos ao trabalho de corte e realização da sinalética, bem como todo trabalho de proximidade com os fornecedores que escolhemos e que resultou na compra dos materiais artísticos necessários à realização da intervenção. Foi também altura de agruparmos os participantes diretos do projeto “O Nosso Mapa” em equipas que teriam responsabilidades diretas na organização e coordenação do evento, atribuindo ferramentas que lhes permitiriam assumir uma atitude de anfitriões, abordando os espectadores, explicando o projeto, convidando a participar.

Com os artistas, além de um primeiro contacto com os participantes diretos do projeto e com a comunidade do Bairro da Ponte de Anta, foquei as reuniões que tivemos na criação de um grupo de trabalho que permitisse desenhar o evento a realizar no dia da pintura do mural e da sinalética de identificação da comunidade. Apesar de contar com mais de uma década de experiência na realização de eventos relacionados com a arte, posso seguramente afirmar que raras vezes tive a oportunidade de trabalhar com um grupo tão coeso, tão participativo e tão presente na forma de fazer aquilo que eu gosto de chamar de “transformação desinteressada”. Escrevo-o porque não houve qualquer tipo de chachet envolvido nas atuações e demonstrações a realizar ao vivo e porque, com outro grupo qualquer de pessoas, teria sido praticamente impossível ultrapassar todos os constrangimentos relativos ao acerto de agendas e da disponibilidade de um conjunto tão alargado de artistas.

Projeto “O Nosso Mapa” – Experimentação Artística

A etapa de experimentação artística por níveis do projeto “O Nosso Mapa” com a comunidade do Bairro da Ponte de Anta teve como principal objetivo e referência criar um espaco de aprendizagem leve e divertido, mas ao mesmo tempo profundo. Do diagnóstico inicial e da fase de ativação dos moradores da comunidade, nasceu um programa de formação personalizado às necessidades/características individuais e do grupo de trabalho, como um todo. Este tipo de abordagem ao trabalho artístico é muito importante, porque nos permite focar no participante e não no resultado, para que cada um possa ganhar independentemente desse mesmo resultado, atribuindo um peso ao seu comportamento, um sentido de progressão, a percepção da contribuição individual para o resultado coletivo e um sentimento de reconhecimento do potencial realizado através de um feedback instantâneo e constante. Este tipo de abordagem é, também, extremamente importante porque retira a pressão natural da responsabilidade da transformação da comunidade pelos moradores e porque permitiu construir uma obra que pode ser encarada como símbolo e testemunho da coesão, espírito de equipa e imaginação de todos os moradores, oferecendo uma perspectiva visual inovadora como prova da superação do desafio proposto – queremos reforçar a mensagem, a visão e a missão de cuidar dos espaços de domínio público na comunidade do Bairro da Ponte de Anta.

Ao transformarmos espaços de domínio público através da corresponsabilização no processo de decisão, realização e de direção artística estamos, na verdade, a construir relações de identidade com base na participação coletiva. Escrevo-o porque acredito verdadeiramente no valor das pequenas mudanças e no potencial que cada um tem para transformar o meio em que está inserido e porque, desde o início de todo este processo, que trabalhamos dois tipos de problemáticas: a aparente e a não-aparente, no sentido de criarmos dois legados, o material e o imaterial. E foi precisamente no legado imaterial que encontramos todas as respostas para a memória descritiva da obra de arte que nascerá junto à sinalética que vai mapear toda a comunidade do Bairro da Ponte de Anta. Procurei, em toda a gestão de projeto, criar também condições para a autonomização informal de projetos dos participantes directos, visando a sua gradual emancipação para a produção independente de conteúdos artísticos com o objectivo da coesão e inclusão social. De que outra forma poderíamos melhor potenciar as externalidades positivas e o ciclo virtuoso de multiplicação da intervenção do projeto “O Nosso Mapa”?

Ao centrar a metodologia participativa que desenvolvi com base na liderança servidora e no legado de Nelson Mandela, centrei as ferramentas e dinâmicas de educação não-formal que criei na filosofia Ubuntu. A palavra Ubuntu exprime a consciência da relação entre o indivíduo e a comunidade, definindo um indivíduo em termos do seu relacionamento com os outros, podendo ser livremente traduzida na expressão “Eu sou porque tu és”, estando intrinsecamente relacionada com valores como o respeito, a partilha, a generosidade, a união, a abertura e a disponibilidade. Ubuntu não significa que as pessoas não devam cuidar de si próprias, já que é o alicerce fundamental do conceito de liderança servidora. E, para nos colocarmos como líderes servidores, a questão fundamental que devemos fazer é: como posso colocar o meu desenvolvimento pessoal ao serviço do desenvolvimento da minha comunidade?

Projeto “O Nosso Mapa” – Ativação da Comunidade

A fase de ativação da comunidade do Bairro da Ponte de Anta para o projeto “O Nosso Mapa” teve como principal objetivo alinhar as ações das equipas de trabalho compostas pelos moradores, nomeadamente as formas de pensar e de agir no trabalho em conjunto. É aqui que o conceito e a atitude de liderança servidora desempenham um papel fundamental, porque é aqui que se começam a despertar o interesse e o prazer de “fazer com as próprias mãos”. Com isso em mente, o primeiro desafio e talvez o mais decisivo, foi o de criar uma dinâmica de conjunto que permitisse aproximar a missão pessoal de cada um à missão do projeto, com foco nas alianças, no estar aberto e disponível para os outros.

Ao longo dos últimos 6 anos, com a incubação do Projeto Trinsheira e com a minha passagem pela Área Transversal de Economia Social da Universidade Católica do Porto, tive oportunidade de construir e desenvolver uma abordagem e um método de design thinking que responde às perguntas essenciais: “que problema quero ver resolvido?” e “Como garanto a sustentabilidade da solução?”. Com o JODE, diretor artístico do “O Nosso Mapa” e co-fundador do Projeto Trinsheira, desenvolvi um processo de criação artística que segue metodologias de fortalecimento individual e colectivo, estruturadas para trabalhar a tomada de decisões, a resiliência e a participação coletiva.

Nesta fase de ativação da comunidade, foram introduzidas ferramentas que permitiram melhor decifrar a arte urbana, a gestão do projeto e a direção artística. A metodologia participativa que desenvolvi e que é centrada na liderança servidora e no legado de Nelson Mandela, envolve todo o grupo na mudança que é preciso atingir, no problema que queremos ver resolvido e na direção artística da obra de arte, desde esta fase inicial.

O características do ensino formal português e as características do tecido social que compõe as comunidades onde sempre me senti mais motivado para trabalhar, fazem com que a primeira reação a este tipo de intervenção seja, normalmente, a surpresa – em Portugal as pessoas não estão habituadas a que lhes “passem a bola”, pura e simplesmente. O Bairro da Ponte de Anta não foi excepção. Apesar na natural resistência inicial, sinto que todo este processo foi algo que aceitaram como natural e onde puderam descobrir espaço para o desenvolvimento pessoal, da sua comunidade e das suas relações de vizinhança. Sinto que fomos bem recebidos e que as ferramentas de gestão de projeto que trouxemos para esta comunidade com “O Nosso Mapa” provocaram curiosidade mas, mais do que isso, conseguiram abrir uma página em branco na memória coletiva.

Costumo dizer que não sou, nem ninguém se deveria sentir, responsável pela transformação do que quer que seja. Sou apenas responsável por tentar criar um espaço e um desafio concreto onde isso seja possível e credível. Senti desde o início, bem como o JODE, nas longas conversas que tivemos sobre isso, que há muito potencial não realizado na comunidade do Bairro da Ponte de Anta. Gente simples, que valoriza as coisas simples da vida. Gente que nos trás de volta aquilo que somos e que mostram uma capacidade e um espirito de grupo que já me surpreendeu inúmeras vezes. Mas é essa a história de Portugal, não é? A história de pessoas comuns… a fazerem coisas extraordinárias.