Requalificação CH Ponte de Anta – Ativação da Comunidade

Foi com muito orgulho e com um enorme sentido de responsabilidade que encarei o desafio liderar a equipa do Projeto Trinsheira no projeto de requalificação do campo de futebol do Conjunto Habitacional da Ponte de Anta. A fase de ativação da comunidade para este projeto teve como principal objetivo alinhar as ações das equipas de trabalho compostas pelos moradores, nomeadamente as formas de pensar e de agir no trabalho em conjunto. É aqui que o conceito e a atitude de liderança servidora desempenham um papel fundamental, porque é aqui que se começam a despertar o interesse e o prazer de “fazer com as próprias mãos”. Com isso em mente, o primeiro desafio e talvez o mais decisivo, foi o de criar uma dinâmica de conjunto que permitisse aproximar a missão pessoal de cada um à missão do projeto, com foco nas alianças, no estar aberto e disponível para os outros.

Quando trabalhamos para desenvolver estímulos positivos no quotidiano de domínio público no sentido de criar laços mais fortes entre as pessoas e os lugares onde vivem e trabalham, temos que começar por ativar a comunidade para a transformação. A nossa missão no Projeto Trinsheira é a de despertar a vontade de “fazer com as próprias mãos” e, com base na participação coletiva, construir relacões de identidade através da criação de memórias de longa duração. Num contexto de transmissão de competências sociais e artísticas, com base em mecânicas de educação não-formal, temos a visão de trabalhar a liderança servidora e o desenvolvimento de talentos com os jovens que serão os protagonistas da intervenção.

Nesta fase de ativação da comunidade, foram introduzidas ferramentas que permitiram decifrar de uma forma mais profunda a arte urbana, a gestão do projeto e a direção artística. A metodologia participativa que desenvolvi e que é centrada na liderança servidora e no legado de Nelson Mandela, envolve todo o grupo na mudança que é preciso atingir, no problema que queremos ver resolvido e na direção artística da obra de arte, desde esta fase inicial.

As características do ensino formal português e as características do tecido social que compõe as comunidades onde sempre me senti mais motivado para trabalhar, fazem com que a primeira reação a este tipo de intervenção seja, normalmente, a surpresa – em Portugal as pessoas não estão habituadas a que lhes “passem a bola”, pura e simplesmente. O Bairro da Ponte de Anta não foi excepção. Apesar na natural resistência inicial, sinto que todo este processo foi algo que aceitaram como muito natural e necessário mas, mais do que isso, foi um sítio onde puderam descobrir espaço para o desenvolvimento pessoal, para o desenvolvimento da sua comunidade e das suas relações de vizinhança. Sinto que fomos muito bem recebidos e que as ferramentas de gestão de projeto que trouxemos para esta comunidade provocaram curiosidade mas, mais do que isso, conseguiram abrir uma página em branco na memória coletiva.

Costumo dizer que não sou, nem ninguém se deveria sentir, responsável pela transformação do que quer que seja. Sou apenas responsável por tentar criar um espaço e um desafio concreto onde isso seja possível e credível. Aqui, nesta comunidade em que cresci e onde me fiz homem, senti sempre que há muito potencial não realizado. Gente simples, que valoriza as coisas simples da vida. Gente que nos trás de volta aquilo que somos e que mostram uma capacidade e um espirito de grupo que me surpreende sempre. Mas é essa a história de Portugal, não é? A história de pessoas comuns… a fazerem coisas extraordinárias.

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